Quando a inteligência artificial fica mais cara do que contratar uma pessoa

Quando a inteligência artificial fica mais cara do que contratar uma pessoa

Ferramentas de vídeo por IA impressionam, mas o custo real aparece quando entram na conta as tentativas descartadas, as correções e o preço por segundo realmente aproveitável

A inteligência artificial prometeu reduzir custos de produção. Em muitos casos, conseguiu. Texto, pesquisa, tratamento de imagens, automações e uma série de tarefas ficaram mais rápidas e acessíveis.

Mas o mercado começa a chegar a uma situação curiosa: em determinadas aplicações, usar inteligência artificial pode custar mais do que contratar um profissional para fazer o mesmo trabalho.

Vídeo generativo é provavelmente um dos melhores exemplos.

As demonstrações são impressionantes. Uma pessoa grava uma cena real, envia o vídeo para uma plataforma e pede que a inteligência artificial acrescente efeitos, transforme ambientes, modifique objetos ou crie acontecimentos que não estavam na gravação original.

O resultado de cinco segundos pode ser extraordinário.

O problema começa quando precisamos de cinco minutos.

O preço da IA não é o preço da primeira geração

Existe uma diferença importante entre o custo anunciado por uma plataforma e o custo real de produção.

Uma geração de cinco segundos não significa necessariamente cinco segundos utilizáveis.

Imagine um vídeo final de cinco minutos. São 300 segundos ou 60 trechos de cinco segundos.

Se forem necessárias apenas duas gerações para conseguir uma versão aceitável de cada trecho, já teremos 120 gerações.

Só que duas tentativas são um cenário bastante otimista.

Em vídeo generativo, uma cena pode sair quase perfeita e ainda assim precisar ser descartada porque uma mão se deformou, um elemento surgiu no lugar errado, o movimento ficou estranho, um personagem mudou de aparência ou simplesmente porque a interpretação da IA não correspondeu ao que o diretor imaginava.

Se forem necessárias quatro, seis ou dez tentativas para chegar ao resultado desejado, o custo cresce na mesma proporção.

Por isso, talvez estejamos usando a métrica errada.

O que deveria ser comparado não é o custo por segundo gerado, mas o custo por segundo efetivamente aproveitado.

E são coisas muito diferentes.

Às vezes, o After Effects ainda ganha

A comparação fica ainda mais interessante quando existe uma filmagem real como base.

A gravação já resolveu cenário, iluminação, enquadramento, pessoas, perspectiva, movimento de câmera e boa parte da continuidade visual.

Se o trabalho restante consiste em inserir um elemento, alterar uma parte do cenário, criar partículas, fogo, fumaça, remover objetos ou acrescentar algum efeito visual, um profissional experiente em composição e pós-produção pode continuar sendo uma solução extremamente eficiente.

Há ainda uma vantagem que costuma desaparecer das demonstrações de IA: controle.

Em uma produção convencional, podemos dizer ao editor:

“Está ótimo. Só diminua esse efeito, mova um pouco para a direita e faça começar meio segundo antes.”

Ele corrige exatamente aquilo.

Na geração por IA, muitas vezes a solução para um pequeno problema ainda é gerar novamente a cena inteira — e pagar novamente pelo processamento.

É quase como contratar um profissional que, a cada pedido de alteração, responde: “vou refazer tudo e vamos ver o que acontece”.

Isso significa que vídeo por IA não vale a pena?

Muito pelo contrário.

Existem situações em que a inteligência artificial pode substituir custos enormes.

Uma cena que exigiria viagem internacional, construção de cenário, produção 3D complexa, dezenas de figurantes, animais, efeitos especiais físicos ou uma estrutura cinematográfica pode se tornar economicamente viável com IA.

Nesse cenário, gastar algumas centenas ou milhares de reais em processamento pode representar uma enorme economia.

A questão não é ser contra ou a favor da tecnologia.

É escolher a tecnologia certa para cada problema.

A melhor produção pode ser híbrida

Na Descomplica Comunicação, enxergamos inteligência artificial como ferramenta de produção, não como obrigação.

Utilizamos tecnologia para ganhar velocidade e ampliar possibilidades criativas, mas também contamos com profissionais e parceiros para cobertura audiovisual, captação, edição e pós-produção quando o método tradicional é mais eficiente.

Em muitos projetos, inclusive, a melhor solução provavelmente será híbrida.

Uma equipe faz a captação real.

A edição tradicional organiza narrativa, ritmo e acabamento.

E a inteligência artificial entra apenas nos pontos em que realmente oferece alguma vantagem.

É menos espetacular do que dizer que “a IA fez tudo”.

Mas provavelmente é mais barato.

E, principalmente, entrega um resultado melhor.

Tecnologia boa é tecnologia que resolve o problema

Existe uma tendência natural de tratar cada nova ferramenta de inteligência artificial como substituta imediata de tudo o que existia anteriormente.

Não funciona assim.

Fotografia não acabou com a pintura. Vídeo não acabou com fotografia. Computação gráfica não acabou com filmagens reais. E inteligência artificial também não precisa eliminar todas essas ferramentas.

Ela entra em uma caixa de ferramentas que ficou maior.

A decisão inteligente não é perguntar:

“Dá para fazer isso com IA?”

Hoje, quase sempre a resposta será sim.

A pergunta profissional é outra:

“Vale a pena fazer isso com IA?”

Quando a resposta for não, contratar uma pessoa não significa estar tecnologicamente atrasado.

Pode significar apenas que alguém fez as contas.

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